TUDO DE NOVO, MAIS UMA VEZ. CAE-BTH:
CAETANO & BETHÂNIA AO VIVO (2025)
Luís Felipe Machado de Genaro
Luís Felipe Machado de Genaro é mestre em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Atualmente realiza o doutorado acadêmico no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC).
A entrada triunfal dos baianos Maria Bethânia e Caetano Veloso no show ocorrido em Curitiba, capital do Paraná, em setembro de 2024, repetiu-se em todas as outras cidades brasileiras que sitiaram centenas de milhares de fãs na última turnê dos filhos de Dona Canô, a quem o Brasil deve uma dívida impagável, diriam alguns sensatos. E não foi para menos.
O evento na capital paranaense – onde tive a honra de escutá-los e vê-los em sua performance histórica, cantando e bailando juntos – marcou aquela noite da cidade. As rádios frequenciaram a movimentação agitada do tráfego, ruelas outrora vazias se enchiam de gente, gente essa que olhava as estrelas nos céus, que naquela noite estava claro! Além das duas estrelas no palco central, uma acústica arrebatou a massa presente a cada entoação potente de Maria, e a cada palavra solta dos lábios de Caetano: “Gente viva, brilhando, estrelas na noite”.
Frente a uma realidade cada vez mais atordoante, realidade que Caetano fez questão de musicar na última faixa do álbum, “Um Baiana”, a percepção geral é de que há oxigenação política no país após anos de desastres programados e políticas genocidas de desmonte do parco Estado de bem-estar brasileiro, contrastado com um contexto global complexo, de ascensão das extremas-direitas de índole fascista que grassam o mundo de forma exponencial e, aparentemente, irrefreável. Seguem plasmadas nos grandes conglomerados de comunicação virtual, com as big techs, e os bilionários “donos da terra”, como expressa os versos do baiano na canção.
Com o intuito de abrir “as fronteiras/ nas eiras, nas leiras/ nas beiras e nos quintais”, o compositor, na faixa conclusiva, reconhece a complexidade dos tempos que correm, a bruteza e a barbárie das guerras e das desigualdades galopantes. E que apesar das belezas e alegrias que inspiraram em sua turnê e álbum conjunto, ambos admitem, igualmente, que o mundo caminha para trás. Não por acaso, Bethânia e Caetano, como forças estéticas e políticas de “outro tempo”, ainda mais sombrio e cruento, nos fizeram – e ainda nos fazem – pender para frente.
DA TURNÊ AO ÁLBUM
O álbum disponível em algumas plataformas e no YouTube, logo chegará às lojas virtuais como LP e CD, contendo 33 canções e trazendo consigo a trajetória artística, musical e política de duas figuras que não apenas assentaram as bases da Música Popular Brasileira (MPB) ainda nas décadas de 1960 e 1970, em toda a sua diversidade e riqueza, mas foram igualmente transformados por elas. Essa transformação ocorreu através dos festivais televisivos, de apresentações históricas em casas de shows ou de relações mercadológicas impostas pela indústria fonográfica – estando essas figuras entre a crítica, a negociação e a acomodação – originando uma produção profícua de álbuns e LPs marcantes.
Na turnê, telões monumentais projetavam as silhuetas envelhecidas de ambos os artistas, entoando e gesticulando com a conhecida finesse, elegância e a mesma ousadia da juventude contracultural tropicalista, ainda mais belas e poderosas com a idade. Fotografias de suas trajetórias, amizades, desamores e escolhas familiares e individuais cruzaram-se com a trajetória coletiva do povo brasileiro. E não apenas: colidiram no melhor dos sentidos com as criaturas sensíveis, os artistas engajados na busca pela identidade brasileira por meio da cultura e da canção popular, fazendo do Brasil um espaço rico de diversidade musical.
Construtores intelectuais do movimento Tropicalista, vigiados e censurados no período ditatorial brasileiro (1964-1985), quando Caetano amargou a prisão e o exílio, enquanto Bethânia esclarecia a todos que não se submeteria a nada nem a ninguém, não havia nenhuma força política ou moral que a moldasse. O período democrático evidenciou, agora com ares libertários, a potência e a sensibilidade de ambos para com a composição e a interpretação de um Brasil profundo e plural, sem a perda do senso estético de alto valor e sempre agregados ao artesanato composicional de suas canções e performances – aquilo que José Miguel Wisnik considerou “alta poesia” em suas reflexões, assim como chamou esses artistas de “criaturas sensíveis” às alegrias e dores sociais de seu povo.
As canções iniciais do álbum, “Alegria, Alegria”, “Os mais doces bárbaros”, “Gente” e “Oração ao Tempo”, marcam o início dessas trajetórias, ecoando os anos intensos de uma produção e intervenção crescentes no cenário musical brasileiro ainda na década de 1960. Se as canções remetem ao período ditatorial e à perspectiva tropicalista daquela conjuntura, como forma de reflexionar a passagem do tempo e os caminhos e entraves brasileiros, as canções que seguem, “Motriz/Não Identificado”, “A Tua Presença Morena”, “Milagres do Povo” e um pot-pourri que engloba “13 de Maio”, Samba de Dois”, “Cosme e Damião”, “Lindomar” e “A Donzela se Casou”, realizam uma mistura sonora que traz à baila os elementos culturais mais intensos daqueles anos, juntamente com canções apaixonadas, envolvendo a extensa família dos baianos, que ficaram nacionalmente reconhecidas nas interpretações potentes de Bethânia.
GAL, PRESENTE
Figuras diversas aparecem nesse ínterim, algumas delas bastante conhecidas: Gal Costa e Gilberto Gil, principalmente. A dupla que fez parte dos “Doces Bárbaros” com Caetano e Bethânia, grupo musical moralmente transgressor, ideologicamente “incômodo” e com práticas cotidianas e libertárias vistas como “subversivas” pelas forças de segurança e repressão da ditadura, ganha centralidade nas canções entoadas, muitas vezes, com o semblante entristecido e a voz embargada dos cantantes – como nas faixas “Vaca Profana”, “Não identificado” e “Baby”.
A perda física de Gal Costa pôde ser sentida, e ouvida, dos lábios dos irmãos Veloso e no semblante que os telões ao lado do palco ofereceram ao público-ouvinte. Essa sensação, agora, pode ser sentida igualmente nas gravações do álbum que remetem às inigualáveis interpretações de Gal Costa, Tropical e Fatal. Nas faixas “Filhos de Gandhi”, “Ia Omni Bum/Dedicatória”, “Eu e a Água”, “Tropicália” e “Marginália II” a bárbara trupe mambembe, junto com Gil, aparece com maior ênfase; em uma junção de forças estéticas e de perspectivas sonoras muitas vezes conflitantes, mas que foram soterradas por relações de amizade, cumplicidade, amor e respeito entre os quatro integrantes formadores da famosa sigla musical. O álbum recupera esses instantes históricos trazendo canções conhecidas do público mais jovem, como “Um Índio”, “Cajuína”, “Você não me ensinou a te esquecer” e “Você é Linda”.
A presença ativa de uma banda com 14 grandes nomes do instrumental e vocal brasileiros foi elogiada pela crítica especializada – justíssimo. A direção musical é assinada por Jorge Helder, presença ilustre nas turnês de Buarque de Hollanda, no baixo, Lucas Nunes, a guitarra foi composta por gente de “gabarito”, afiados e afinados com as estrelas no palco. Nos sopros, Joana Queiroz, Jorge Continentino, Diogo Gomes e Marlon Sette. Na percussão, Kainã do Jêje, Thiago da Serrinha e Pretinho da Serrinha, como participação especial. Nas cordas, Lucas Nunes, Paulo Dafilin, e Jorge Helder, igualmente presente. Já o teclado ficou ao encargo de Rodrigo Tavares.
A potência dos vocais de Jane Magalhães, Jenni Rocha e Fael Magalhães arrebataram o público e os ouvintes do álbum, produzindo força sonora marcante nos fechamentos de cada canção. Esse efeito ocorre, principalmente, nas canções “Fé” (composta pela cantora Iza) e em “Tudo de novo”, encontrando-se com os vocais dos irmãos Veloso e resultando em um momento catártico aos ouvintes.
TUDO DE NOVO: PASSADO E PRESENTE COLIDEM!
Lançado em 1978, o álbum “Maria Bethânia e Caetano Veloso – Ao Vivo” foi mais um daqueles encontros fortuitos de alto nível entre figuras de proa da Música Popular Brasileira, que na década de 1970 vivia entre a criatividade pulsante e o autoritarismo censor da ditadura; um meta-gênero amontoado de grandes personalidades, correntes musicais distintas, figuras engajadas na formação de um outro Brasil, mais diverso e digno para as maiorias.
Para o historiador Marcos Napolitano, no livro “Cultura Brasileira: Utopia e Massificação”, a sigla MPB à época “tornava-se um conceito estético e, sobretudo, político, traduzindo uma música engajada, com letra sofisticada, de bom nível e, de preferência, inspirada nos gêneros mais populares, como o samba” (2001, p.85).
Diferente do álbum “Cae-Beth” lançado em 2025, resultado da turnê histórica, as 12 canções que amarraram o LP resultaram em um olhar terno sobre o Brasil profundo, com algumas faixas compostas por Chico Buarque de Hollanda, amigo íntimo de Bethânia, como “João e Maria” e “Maninha”, além de clássicos da história da canção popular, como “Carcará”, “Maria Bethânia”, “O Leãozinho” e “Doce Mistério da Vida”, a modinha sertaneja “Meu Primeiro Amor” e a apaixonante “Falando sério”.
Já a canção que cruza ambos os álbuns, “Tudo de novo”, desfecha o LP de 1978 e encerra os shows da turnê histórica ocorrida entre 2024-2025. Caetano compõe a canção para a abertura do show feito com a irmã no final de 1970, e com a “mesma grande saudade, a mesma grande vontade”, sobem aos palcos uma vez mais para cantar ao povo. Nos versos, Dona Canô é finamente entronizada como “monumento” humano, histórico e cultural brasileiro, dotada de iluminação peculiar, dizendo a eles uma espécie de sentença, para sempre pedirem licença mas nunca “deixarem de entrar”. Canô não apenas deu ao mundo Bethânia e Caetano, mas uma prole de literatos, professores, poetas e músicos que se espraiaram por Santo Amaro da Purificação, na Bahia, assim como pelos distantes rincões do país.
A questão geracional e familiar em “Tudo de novo” ganha importância singular: apregoados ao seus “ninhos” familiares, os irmãos Veloso jamais se esqueceram ou relegaram a formação cidadã, intelectual, moral e ética que lhes forneceram na infância e juventude – “meu pai me mandou pra vida, num momento de amor, e o bem daquele segundo, grande como a dor do mundo, me acompanha aonde eu vou”, canta.
O público e seus ouvintes compreendem a importância de ambas as trajetórias para a história da canção popular no Brasil. Se as afetações dessa massa puderam ser captadas, em parte, através das faixas gravadas ao vivo no álbum de 2025, posso desatar breve comentário pessoal a respeito do show transcorrido em Curitiba, por fim. A impressão que tive da multidão é que todos pareciam um só sujeito, e aquele momento, aquele encontro – apesar das preparações todas, técnicas, de vocal, de organização, arranjos musicais etc. – deveria acontecer, por fim. Trata-se de um instante no tempo que não encerra carreiras e trajetórias, mas delimita um espaço histórico e marca um ponto e vírgula com grande estilo e sofisticação, um espaço muito bem construído ao longo das décadas.
Os vocais baianos, juntos, tinham de colidir uma vez mais.
O PONTO FINAL?
Com a lamentável morte de Gal Costa, Milton Nascimento se despedindo dos palcos, Chico Buarque distante dos mesmos e Gilberto Gil partindo para a sua última turnê, o momento era chegado: Maria Bethânia e Caetano Veloso tinham, quase de maneira obrigatória, que desfechar a constelação harmoniosa entre os grandes nomes da Música Popular Brasileira.
Críticas ferinas a esses nomes são feitas – “gente intelectualizada”, “elite cultural”, “distantes do povo” etc. Elas evidenciam, apenas, a ignorância cruenta perante a obra de ambos e aos movimentos e dinâmicas históricas que ativamente participaram ao longo da vida. O povo, a massa, a multidão que acompanhava o show cantou esbaforida, aos prantos e em êxtase cada canção, das antigas às mais atuais.
Apesar de oxigenado o gigante tropical, Caetano olhou para o mundo e compôs, como canção final do álbum, “Um Baiana”, letra que se atenta para o avanço da extrema-direita e da relação cada vez mais simbiótica entre o poder político exercido por figuras autoritárias e os grandes conglomerados e plataformas digitais. Como seu avesso, o compositor baiano incita os ouvintes a buscarem as “fissuras” nesse tempo sombrio, iluminando-as, encontrando caminhos alternativos que levem à paz, à dignidade e à justiça para as maiorias do mundo.
Tal como compôs em “Anjos Tronchos”, faixa do álbum anterior, “Meu Coco” (2021) quase que como continuidade da letra, “Um Baiana” chega em momento oportuno, enquanto o mundo se prostra perante os “anjos tronchos do Vale do Silício/ Desses que vivem no escuro em plena luz”. Caetano sabe, assim como qualquer outro cidadão minimamente informado, que esses “palhaços líderes brotaram macabros” e vivemos, hoje, no epicentro de um planeta em chamas.
Por fim, toda essa superprodução, tanto a turnê transcorrida no último ano até o lançamento do álbum, em 2025, assinalam não apenas o momento de emergências que vivemos como país e como povo, mas dão a nós, como fim último, uma mensagem de esperança, delimitando uma época através dos fatos culturais e deixando uma profunda marca na história da canção popular brasileira. Ambos acreditam que as forças estéticas podem se sobrepor e vencer a brutalidade, a ignorância e o obscurantismo[1] do cotidiano.
Maria Bethânia e Caetano Veloso, ao cantarem e ecoarem os rincões, montes e cidadezinhas do país, as matas, as florestas, o povo negro e as nações indígenas, assim como os sujeitos populares que carregam nas costas essa nação como um fardo secular, os amores, alegrias e sofrimentos das multidões dessa imensa Roma negra, não nos deixam esquecer que sim, somos ainda uma província que engatinha perante a “civilização ocidental”, e como cantam os irmãos Veloso, neste Terceiro Mundo, ainda temos muita “banana pra dar e vender”…
No entanto, também somos, como escreveu Darcy Ribeiro, uma nova Roma, “porque lavada com sangue negro e sangue índio”, cujo papel será ensinar ao mundo – muitas vezes através dos versos de uma canção – “a viver mais alegre e mais feliz”. Papel belissimamente cumprido pelos dois artistas baianos, diga-se de passagem.
[1] Caetano Veloso defendeu a relevância política das forças estéticas perante a barbárie e a violência no Brasil e no mundo, no programa Roda Viva de 20 de dezembro de 2021.
Referências
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: formação e sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
WISNIK, José Miguel. As criaturas sensíveis. Ciclo Mutações, 2024.
NAPOLITANO, Marcos. Cultura Brasileira: Utopia e Massificação. São Paulo: Editora Contexto, 2001.
Como citar este texto
GENARO, Luís Felipe Machado de. Tudo de Novo, Mais uma Vez. CAE- BTH: Caetano & Bethânia ao Vivo (2025) A música de: História pública da música do Brasil, v. 7, n. 2, 2025. Disponível em: https://amusicade.com/cae-%e2%9f%b7-bth-caetano-e-bethania-ao-vivo-2025-caetano-veloso-e-maria-bethania/ . Acesso em: 08 mar 2026.




